Naquela noite, quando a casa enfim esvaziou, encontrei Dante no corredor dos quartos.
As crianças tinham dormido comigo de novo.
Ele parecia dez anos mais velho do que na véspera.
— Eu errei com você — ele disse.
Eu estava cansada demais para suavizar.
— Errou.
Ele assentiu, como quem aceitava uma sentença.
— E mesmo assim você ficou.
Olhei para a porta fechada do quarto.
— Eu não fiquei por você.
— Eu sei.
A honestidade dele me pegou desprevenida.
Dante passou a mão no rosto.
— Helena me perguntou hoje se você pode continuar aqui para sempre.
Meu peito apertou num lugar perigoso.
— Crianças pedem eternidade como se não soubessem o peso da palavra.
— E você? — ele perguntou, o olhar fixo em mim. — Sabe?
Eu soube, naquele segundo, que havia perguntas mais arriscadas do que facas.
Não respondi.
Porque eu conhecia homens feridos. Conhecia promessas feitas no susto. Conhecia a fome que nasce depois do medo. E eu não queria virar recompensa por ter salvado ninguém.
Então disse apenas:
— Amanhã eu entrego meu relatório completo. Nomes, horários, tudo que descobri.
Ele deu um passo à frente.
— Alara…
— Não faz isso.
— Isso o quê?
— Me olhar como se agora eu fosse visível.
A frase atingiu mais a ele do que eu esperava.
Talvez porque fosse verdade.
Talvez porque homens como Dante só percebessem o valor de certas coisas quando quase as perdiam.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois falou, baixo:
— Eu vi tarde. Mas vi.
Eu não respondi.
Porque havia cansaços que mereciam mais respeito do que discursos.
Três semanas depois, Bianca estava presa preventivamente. As investigações reabriram o caso da morte de Valentina. Dois funcionários foram afastados. Um advogado antigo de Dante desapareceu do mapa no mesmo dia em que a polícia pediu acesso às contas dele. A sujeira era mais antiga e mais funda do que qualquer revista de celebridade sonharia publicar.
Eu permaneci na casa.
Por enquanto.