Helena voltou a dormir a noite inteira. Mateus parou de esconder comida no bolso por medo de mudanças. Pequenos milagres domésticos, quase invisíveis para o resto do mundo, mas que para mim valiam mais do que manchetes.
Num domingo à tarde, eu estava no jardim com os gêmeos quando Helena ergueu uma flor torta que tinha arrancado do canteiro e perguntou:
— Alara, quando alguém salva a gente, a gente fica devendo amor?
Eu encarei aquela criança de seis anos e tive vontade de chorar.
— Não — respondi. — Amor que parece dívida geralmente vira prisão.
Mateus pensou um pouco e completou:
— Então amor bom é o que fica porque quer.
Eu beijei o topo da cabeça dele.
— Exatamente.
Quando levantei os olhos, Dante estava na varanda.
Tinha ouvido.
Não sorriu.
Só ficou ali, quieto, como um homem que finalmente começava a aprender a diferença entre posse e presença.
E talvez essa tenha sido a parte mais cruel de toda a história.
Não o tapa.
Não a noite da invasão.
Não o medo, nem o sangue, nem a traição dormindo dentro da própria casa.
A parte mais cruel foi esta:
Bianca me bateu achando que eu era fraca.
Dante me ignorou achando que eu sempre estaria ali.
E no fim, a única pessoa que saiu daquela guerra inteira intacta fui eu.
Porque eu não precisei ser escolhida.
Eu já tinha escolhido a mim mesma.