Até o dia em que recebi a ligação dela, três semanas antes de morrer.
“Se alguma coisa acontecer comigo, protege meus filhos. Não confia em todo mundo perto do Dante.”
Na época achei exagero de mulher assustada.
Três meses depois, ela morreu num acidente de carro que saiu limpo demais no noticiário.
Acidente.
Sempre usam essa palavra quando querem que a sujeira pareça destino.
Dante me encarava como se cada frase minha arrancasse uma camada de pele dele.
— Por que voltou só agora?
— Porque alguém tentou se aproximar das crianças no colégio duas vezes no último semestre. Porque um ex-motorista seu apareceu morto. Porque a mulher com quem o senhor pretende se casar entrou na vida dessas crianças rápido demais, sabendo demais, sorrindo demais.
— Está me dizendo que Bianca…
— Estou dizendo que ela odeia qualquer obstáculo. E crianças herdeiras costumam ser obstáculos grandes.
Ele se aproximou até parar a um passo de mim.
— Você tem provas?
Eu sustentei o olhar.
— Ainda não. Mas tenho instinto, marcas no braço do seu filho, medo nos olhos da sua filha e um rastreador dentro da mochila dela. Para começar, já é melhor do que a sua cegueira.
A respiração dele pesou.
Por um instante pensei que me mandaria embora.
Em vez disso, Dante disse:
— Fique perto deles esta noite.
— Eu sempre fico.
Eu me virei para sair, mas a voz dele veio baixa, quase áspera:
— Bianca não vai mais tocar em você.
Não olhei para trás.
— Isso já não importa.
Mas importava.
Importava porque eu tinha odiado que doesse.
Importava porque eu tinha odiado ainda mais o fato de uma parte de mim ter esperado que ele me defendesse.
Na madrugada, entendi que já estávamos atrasados.
Acordei com o alarme silencioso do sensor que eu mesma tinha instalado na janela lateral do quarto das crianças.
Quando abri os olhos, a maçaneta já estava girando.
Eu rolei da poltrona antes mesmo da porta se abrir por completo.
O primeiro homem entrou de máscara. O segundo vinha atrás.
Nenhum deles esperava que a babá estivesse acordada.