Ele ainda não sabia que a resposta ia explodir muito além de uma mentira dentro daquela casa.

Ele ainda não sabia que a resposta ia explodir muito além de uma mentira dentro daquela casa.

Eu encostei a porta atrás de mim.

— A pergunta certa é outra.
— Qual?

— Quem quer matar seus filhos?

O rosto dele não mudou.

Só os olhos.

E bastou.

Eu enfiei a mão no bolso do avental e coloquei sobre a mesa um pequeno dispositivo preto.

Rastreador.

— Encontrei isso costurado na mochila da Helena ontem à tarde.

Dante ficou imóvel por um segundo longo demais. Depois pegou o objeto.

— Onde?

— No forro interno. Bem escondido. Coisa feita por profissional.

Ele ergueu os olhos para mim.

— Por que não me contou antes?

Eu dei um passo à frente.

— Porque há alguém perto demais de você. Alguém que entra e sai dessa casa sem ser questionado. E porque eu ainda não sabia se o vazamento vinha dos seus funcionários… ou de você.

O maxilar dele endureceu.

— Cuidado.

— Não. O senhor que tenha cuidado. Eu não vim aqui para agradar seu ego, Dante. Vim porque sua esposa morreu achando que podia proteger essas crianças sozinha.

Foi a primeira vez que falei nela.

Valentina.

O nome caiu entre nós como vidro.

Dante empalideceu de um jeito quase imperceptível.

— Você conhecia a Valentina?

— Ela me salvou há seis anos.

A lembrança rasgou meu peito, mas eu continuei.

Eu tinha dezenove anos quando meu padrasto me quebrou duas costelas por eu ter tentado defender minha mãe. Valentina, então voluntária num projeto social de mulheres em situação de violência, foi quem me tirou daquela casa. Pagou meu primeiro curso. Me ensinou que gentileza não era fraqueza. E, anos depois, quando se casou com Dante, me chamou uma vez para trabalhar para ela.

Eu recusei.

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